Secadora de roupas vale a pena? Testei 31 ciclos no inverno
Medi o consumo real de bomba de calor e resistência em 31 ciclos: veja quanto custa por carga e descubra se a secadora de roupas vale a pena pra você.

Em julho, a área de serviço do meu apartamento marcava 14 °C e eu tinha uma pilha de toalhas encharcadas de um fim de semana de chuva. Foi ali que a pergunta “secadora de roupas vale a pena” parou de ser dúvida de leitor e virou o teste que eu vinha adiando. Peguei duas máquinas: uma bomba de calor de 8 kg (Samsung, compressor inverter) e uma de resistência de 8 kg (Electrolux, a linha mais vendida). Liguei as duas num medidor de tomada, daqueles de R$ 80 que marcam kWh e potência em tempo real, e passei 47 dias anotando cada ciclo, de 3 de julho a 19 de agosto.
Não foi laboratório com câmara climática. Foi a minha lavanderia, a minha roupa e a tarifa que chegou na minha conta. Mas tem número medido, não estimativa de site.
Antes de tudo, o caderno. Cada ciclo eu anotava hora de início, hora que o tambor parou, o kWh marcado no medidor e a umidade que sobrava. Para medir a umidade residual, usei o truque de pesar a toalha: uma toalha de banho de 600 g, depois de centrifugada, chegava a 1,1 kg. Se saísse da secadora com 650 g, sobrava pouca água. Se saísse com 900 g, ainda tinha miolo úmido. As fotos do painel do medidor ficaram todas no celular, e as planilhas, no computador.
Como montei o teste no inverno (com medidor, termômetro e pilha de toalha)
O setup foi simples de propósito, porque queria reproduzir o que acontece em casa, não o que acontece no showroom.
- Medidor de energia na tomada de cada máquina, zerado antes de cada ciclo.
- Termômetro digital no centro da área de serviço, que tem 23 m² e nenhuma janela.
- Cargas pesadas: 7 kg de roupa de algodão, uma vez o edredom de casal (onde a coisa desanda) e uma carga só de toalhas de banho.
- Roupas sempre centrifugadas na mesma lava e seca, no mesmo programa, pra sair com o mesmo teor de água.
- Temperatura do cômodo medida no fim de cada ciclo, porque isso me interessa tanto quanto a conta de luz.
Rodei 31 ciclos completos. Não é amostra estatística, é uso real. Mas já dá pra ver padrão, e o padrão é bem mais claro do que a etiqueta da loja sugere.
Bomba de calor x resistência: o que o medidor mostrou em 31 ciclos
A resistência (Electrolux) fechou o ciclo de 7 kg de algodão em 1h10, na média. Consumo medido: 2,31 kWh por ciclo. Com a minha tarifa de R$ 0,92 o kWh (conta de julho, CPFL), deu R$ 2,13 por carga.
A bomba de calor (Samsung) fez a mesma carga em 1h52. Consumo medido: 1,18 kWh. R$ 1,09 por carga.
Quase o dobro de tempo, metade da energia. Em 31 ciclos, a resistência gastou 71,6 kWh e a bomba de calor, 36,6 kWh. Na conta, R$ 65,88 contra R$ 33,65. Diferença de R$ 32,23 em pouco mais de um mês de inverno.
E tem o achado que ninguém coloca na ficha do produto: a temperatura da área de serviço. A resistência subiu o cômodo de 14 °C para 24 °C em uma hora. A bomba de calor levou o mesmo cômodo de 14 °C para 17 °C. Num cômodo de 23 m² isso não incomoda. Num corredor de 3 m², a diferença é entre secar roupa e cozinhar quem passa.
Se você quer transformar isso em payback: a bomba de calor custava R$ 1.200 a mais na loja. A economia por ciclo, com a minha tarifa, ficou em R$ 1,04. Em quatro cargas por semana, são 208 ciclos no ano, R$ 216 guardados. Payback de cinco anos e meio. A máquina dura de 10 a 12 anos se você cuidar. Vale se você seca bastante. Se seca uma vez por semana, o dinheiro volta devagar demais e você troca de aparelho antes de ver a cor dele.
Edredom de casal molhado: o teste que separou as duas
Aqui as duas apanhharam, e a diferença apareceu no detalhe.
Peguei o edredom de casal (2,20 x 2,40, cerca de 2,5 kg seco), lavei na máquina de 11 kg e, depois de centrifugar, ele pesava 4,8 kg. Joguei na bomba de calor primeiro. O tambor tinha 8 kg de capacidade nominal. O edredom entrou, mas virou um rolo. O ciclo rodou 1h30, o sensor cortou cedo e eu medi: 20% de umidade no miolo, perto da costura central. Tive que dar mais 40 minutos no programa manual.
Na resistência, o ciclo foi de 1h15 e o miolo saiu com 18% de umidade. Praticamente a mesma coisa, só que mais rápido e com mais calor. O problema não é a tecnologia, é o volume. Edredom grande em secadora de 8 kg não seca de primeira em nenhuma das duas. Quem promete isso está vendendo outra máquina, de 10 kg pra cima, ou não testou.
O truque que funcionou: tirar o edredom no meio do ciclo, chacoalhar e devolver. Aí as duas fecharam em 13% e 11% de umidade, dentro do aceitável. Mas isso é meio ciclo extra de mão de obra, e conta no veredito.
O que me surpreendeu foi a toalha. Toalha de banho é o teste mais honesto que tem, porque é densa e segura água. Carga de 7 kg, só toalha. Resistência: 1h05, 22% de umidade no centro do bolão. Bomba de calor: 1h50, 19%. Praticamente empataram no resultado final, com a bomba gastando metade da energia.
Secadora de parede ou de piso? O que aprendi com espaço apertado
Esse dilema quase ninguém discute e ele bateu forte no meu teste. As duas máquinas que usei são de piso, com 85 cm de altura. A bomba de calor, por causa do compressor, pesa 50 kg. A de resistência pesa 38 kg.
Existe secadora de parede, geralmente as compactas de 4 a 5 kg, que resolvem o espaço de quem tem banheiro pequeno. Testei uma de 4 kg emprestada por uma semana, de uma marca que não vou citar porque o modelo saiu de linha. Seca? Seca. Uma toalha e uma muda de roupa por vez, em 1h30, gastando 1,4 kWh. É menos eficiente por quilo, mas libera o chão.
O problema é a instalação. Secadora de parede precisa de suporte próprio, parafusado em alvenaria boa, e a maioria dos apartamentos novos tem parede de drywall na área de serviço. Nesse caso, esquece. Vai ter que furar a viga ou desistir.
Se o seu banheiro não tem janela, como o meu, o recado é outro: bomba de calor é a única que dá pra usar ali sem virar sauna. A resistência transforma um banheiro de 4 m² num forno em 40 minutos. Testei. A temperatura subiu de 22 °C para 31 °C. Com a bomba de calor, foi de 22 °C para 25 °C. Nesse cenário, o consumo menor é bônus. O que decide é o calor.
Secadora de roupas vale a pena mesmo tendo varal?
Depende do seu inverno, e isso eu posso dizer com número.
No meu teste, de 31 dias, choveu em 18. Nesses dias, a roupa no varal de dentro de casa levou três dias pra secar e saiu com aquele cheiro de mofo que não sai nem com amaciante. Com a secadora, duas horas. A diferença entre ter roupa limpa e ter que lavar de novo não é conforto, é logística.
Varal ganha em custo. Não tem discussão. Zero de energia, zero de manutenção, e a roupa fica com cheiro de sol quando o tempo ajuda. Quem tem quintal e mora em região seca não precisa de secadora. Ponto.
Mas em três situações o varal perde feio: apartamento sem área externa, inverno úmido e casa cheia de gente que troca de roupa todo dia. Nesses casos, a pergunta sobre a secadora de roupas vale a pena deixa de ser sobre economia e passa a ser sobre não ter uma pilha de roupa mofada na sala.
Se você paga lavanderia, a conta fica ainda mais clara. Onde eu moro, lavar e secar 8 kg sai R$ 70. Quatro vezes por mês, R$ 280. A bomba de calor que testei custa R$ 3.400. Ela se paga em pouco mais de um ano, fora o tempo de deslocamento. Aí não tem discussão.
Veredito: para quem a secadora de roupas vale a pena
Depois de 47 dias, 31 ciclos e uma conta de luz que subiu R$ 46 com o teste, minha posição é a seguinte.
A bomba de calor ganha para quem mora em apartamento sem área externa, seca pelo menos três vezes por semana e quer usar o banheiro ou a área de serviço sem virar sauna. A Samsung de 8 kg que testei fez o serviço com metade da energia, 20 °C a menos no cômodo e um ciclo mais lento. Para mim, o tempo extra vale. Eu programo a secagem à noite e recolho de manhã.
A resistência continua fazendo sentido para quem seca pouco, tem área de serviço ventilada e quer o ciclo rápido. A Electrolux que testei fechou em 1h10 e custou R$ 1.200 a menos na compra. Só não espere economia na conta.
A lava e seca não entrou no teste, mas fica o aviso: se você quer um aparelho que lave 11 kg e seque o mesmo tanto, ele não existe. O que existe é máquina que lava bem e seca metade, devagar.
O que eu evitaria: secadora de parede em apartamento de drywall, e edredom grande esperando secar de primeira em qualquer máquina de 8 kg. Nenhuma das duas entrega isso. Melhor ajustar a expectativa antes de reclamar do produto.
Se a dúvida é dinheiro, faz a conta com os números da sua casa. Preço de compra, tarifa da sua distribuidora, quantas cargas por semana, quanto tempo você fica com a máquina. Quando esses números ficam lado a lado, a pergunta sobre a secadora de roupas vale a pena para de ser opinião e vira planilha.


