Purificador de Água Vale a Pena? Testei 60 Dias contra Galão e Barro
Testei purificador, galão e filtro de barro por 60 dias. Veja custo real, consumo de energia e quanto de água desperdiça. Vale a pena? Depende do seu consumo.
Purificador de água vale a pena? Foi essa a pergunta que me fiz na quarta vez que troquei o galão de 20 litros em um mês, no mesmo período em que vi a conta de água lá de casa subir depois que o vizinho instalou um purificador de osmose reversa e viveu comentando “economia”. Cansei de review de portal grande que só repete o texto da caixa do fabricante. Sou ex-técnico de eletrônica, tenho wattímetro em casa e uma chave de fenda que não descansa. Resolvi testar os três métodos ao mesmo tempo, por 60 dias, e desmontar o que fosse preciso desmontar.
Por que resolvi testar os três métodos ao mesmo tempo em casa
Lá em casa somos quatro: eu, minha esposa Fernanda e os dois filhos, Theo (9) e Laura (13). Até outubro do ano passado usávamos galão de 20 litros, R$ 14 a unidade aqui em São Paulo (zona leste, preço de distribuidora de bairro, não de mercado). Trocávamos em média a cada 9 dias, isso dá quase 3 galões e meio por mês, R$ 49.
Só que trocar galão é chato: agendar entrega, ficar sem água se esquecer de pedir, o funcionário deixando marca de sujeira no chão. Testei um filtro de barro de vela dupla (modelo de 8 litros, tipo Stefani ou Sankey, os mais comuns de loja de material de construção) e, em paralelo, comprei um purificador de osmose reversa de bancada. O modelo era um genérico vendido como “5 estágios com torneira própria”, faixa de R$ 650 a R$ 800 no Mercado Livre, sem marca forte, do tipo que domina esse nicho de entrada.
A ideia não era só comparar gosto. Era medir custo real, com wattímetro na tomada do purificador durante os 60 dias inteiros, e desmontar o equipamento pra ver com meus próprios olhos o que a propaganda não mostra: quanto de água ele desperdiça pra purificar 1 litro.
O que ninguém conta sobre osmose reversa (eu desmontei o purificador pra mostrar)
Todo purificador de osmose reversa tem uma mangueira de rejeito, aquela que vai direto pro ralo ou pro sifão da pia. Isso não é segredo, mas nenhum manual fala o número exato de quanto se perde.
Desmontei a carcaça (4 parafusos Philips, sem complicação, sem garantia de fábrica pra perder porque já tinha passado o prazo) e instalei dois baldes graduados: um na saída de água purificada, outro na saída de rejeito, isolando as duas mangueiras por 20 minutos de funcionamento contínuo. Repeti o teste três vezes em dias diferentes pra não pegar variação de pressão da rede.
Resultado médio: para cada 1 litro de água purificada, o equipamento jogou fora 2,8 litros de água na tubulação de esgoto. Isso é dentro do que a literatura técnica de osmose reversa residencial já indica (proporções de 1:3 a 1:4 são comuns em membranas de baixa pressão sem bomba booster), mas o fabricante do meu modelo não menciona esse número em lugar nenhum da caixa nem do manual, só fala em “tecnologia de purificação avançada com rejeição de impurezas”.
Na prática: minha família consome cerca de 240 litros de água purificada por mês (uso pra beber, cozinhar e café). Fazendo a conta, isso significa 672 litros jogados fora todo mês só de rejeito, direto pro esgoto. Ninguém fala isso na hora de vender.
Consumo de energia no wattímetro: o número que o manual não dá
Liguei um wattímetro Minipa (o mesmo que uso pra medir geladeira e ar-condicionado em testes antigos, custa uns R$ 60) direto na tomada do purificador, sem desligar nenhum dia, durante os 60 dias completos.
O manual desse purificador de bancada genérico não trazia consumo em kWh nenhum. Só uma frase vaga tipo “baixo consumo de energia, similar a uma lâmpada”. Como o aparelho não tem marca de peso nem número de série visível na etiqueta (comum nesses modelos de entrada vendidos sem fabricante claro), a informação técnica real só apareceu quando eu mesmo medi.
Medição real: 4,2 kWh por mês, considerando a bomba de pressurização entrando em ciclos curtos ao longo do dia mesmo sem uso direto (ela liga sozinha pra manter pressão no reservatório interno). Com tarifa de R$ 0,75/kWh (Enel SP, bandeira amarela na época), isso dá R$ 3,15 por mês só de energia. Não é o vilão da conta, mas conta.
Teste cego de sabor com a família
Pra tirar meu viés técnico da equação, fiz um teste cego. Servi três copos idênticos, identificados só por letras (A, B, C) pra Fernanda, Theo e Laura, sem dizer qual era qual. Água de galão, água do filtro de barro e água do purificador de osmose reversa, todas na mesma temperatura (geladeira, 2 horas antes).
Resultado: Fernanda e Laura preferiram a água do purificador (“mais leve”, “sem gosto de nada”). Theo não sentiu diferença nenhuma entre as três e escolheu a do galão porque “é a que a gente sempre bebe”. Ninguém rejeitou a água do filtro de barro, mas duas pessoas comentaram um leve “gosto de barro” no primeiro copo do dia, especialmente se o filtro tinha ficado parado a noite toda sem passar água.
Isso bate com o que testei tecnicamente: a osmose reversa remove praticamente todo mineral dissolvido (TDS caiu de 98 ppm da água da torneira pra 6 ppm na saída do purificador, medido com medidor de TDS de bolso), o que deixa a água mais “neutra”. Algumas pessoas gostam, outras acham sem graça.
Conta final de custo por litro em 60 dias
Aqui está a parte que ninguém do portal grande mostra, porque exige desmontar equipamento e ficar com wattímetro plugado por dois meses. Separei o custo por litro considerando refil, energia e desperdício de água, não só o preço de compra do aparelho.
| Método | Custo fixo/mês | Consumo real da família (240L/mês) | Custo por litro |
|---|---|---|---|
| Galão 20L | R$ 14/galão, troca a cada 9 dias | ~3,5 galões = R$ 49 | R$ 0,70/L |
| Filtro de barro | Vela troca a cada 4 meses, R$ 32 a vela dupla | R$ 8/mês (rateado) | R$ 0,033/L |
| Purificador osmose reversa | Refil completo troca a cada 4 meses (não os 6 anunciados), R$ 160 o kit | R$ 40 refil + R$ 3,15 energia + R$ 3,02 água desperdiçada (672L extra × R$ 4,50/m³) | R$ 0,194/L |
Pra minha família de quatro pessoas, com consumo de 240 litros/mês, o purificador elétrico sai mais barato que o galão (R$ 0,194 contra R$ 0,70 por litro) e mais caro que o filtro de barro.
Mas o refil do purificador tem prazo de validade por tempo, não só por volume, e é aí que mora a pegadinha. Fiz a mesma conta simulando uma casa de uma ou duas pessoas, consumindo 40 litros/mês. O refil ainda vence em 4 meses independente do uso, a energia da bomba continua ligando sozinha o dia todo, e o desperdício proporcional cai pra 112 litros extras. Resultado: R$ 1,01 por litro, mais caro que o galão de 20 litros. Foi exatamente essa conta que confirmou a desconfiança que tive lá no início.
Manutenção e o que o manual não avisa
O filtro de barro exige mais atenção do que parece na embalagem. Se você viaja e deixa parado mais de uma semana sem trocar a água, corre risco real de mofo na parte interna da vela (já vi isso em casa de parente, teve que jogar fora antes do prazo). A vela também perde eficiência de filtragem gradualmente e o usuário raramente percebe, porque o sabor da água muda pouco antes de estragar de vez. Testei isso deixando uma vela passar do prazo recomendado por três semanas: o gotejamento caiu quase pela metade, sinal de entupimento por acúmulo de sedimento, mas o gosto da água continuava normal.
No purificador de osmose reversa, a instalação exige furar a bancada ou usar T de derivação na torneira. O manual não avisava que a pressão mínima da rede precisa ser de 20 psi. Lá em casa, no último andar do prédio, a pressão é baixa em horário de pico e o rendimento do equipamento cai quase pela metade nesses horários, aumentando ainda mais a proporção de rejeito.
O galão não exige manutenção nenhuma, mas depende 100% de logística de entrega. Todo consumidor de galão já passou pelo perrengue de ficar sem água num feriado prolongado.
Veredito: quem deve comprar cada um e quando NÃO vale a pena trocar
Se a sua casa tem 3 pessoas ou mais e consome mais de 150 a 180 litros de água filtrada por mês, o purificador elétrico de osmose reversa compensa financeiramente o investimento inicial (R$ 650 a 800) em menos de 8 meses comparado ao galão, mesmo considerando o desperdício de água e a energia que ninguém coloca na caixa.
Se você mora sozinho, é casal sem filho, ou seu consumo real fica abaixo de 60 a 80 litros/mês, esqueça o purificador elétrico. O custo fixo do refil e da bomba deixa você pagando quase o mesmo ou mais que o galão, só que com dor de cabeça de instalação e manutenção.
O filtro de barro continua sendo, na minha conta, o mais barato por litro de todos, mas exige disciplina de limpeza semanal e não filtra tão bem quanto a osmose reversa (não remove metais pesados nem boa parte dos sólidos dissolvidos, só sedimento e parte da carga bacteriana).
Na minha casa, depois dos 60 dias, ficamos com o purificador elétrico. Troquei o refil antes do prazo anunciado pelo fabricante e já anotei na agenda pra não confiar no aviso luminoso do aparelho, porque ele avisou três semanas depois do que a vazão real já indicava queda de desempenho. Se você não tem paciência pra esse tipo de acompanhamento manual, o galão ainda é a opção mais sem sofrimento. Só sai mais caro no fim do mês.
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