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Cooktop por indução vs gás 2026: teste real revela números

Testei os dois por uma semana: veja quanto realmente custa cozinhar em cada um. A conta que ninguém faz na hora de escolher. Leia o comparativo completo.

Foto: RDNE Stock project / Pexels

Comprei os dois. Um cooktop por indução de duas bocas da Philco (modelo PH2200, 220V, 3400W no boost) e um cooktop a gás de mesa da Fischer (dois queimadores, que é o que 90% das cozinhas brasileiras usa quando troca o fogão grande). Instalei um medidor de consumo direto na tomada (um Sonoff POW R2 calibrado) e um medidor de vazão de gás na saída do botijão P13. Durante uma semana, cozinhei arroz, feijão, água e misturas nos dois, sempre anotando tempo, temperatura e custo. O que eu achava que ia achar: que o indução dava um banho de economia no gás. O que os números mostraram: depende, e depende de um jeito que ninguém conta quando você está no shopping com o cartão na mão.

Mito #1: “Cooktop por indução é mais econômico na conta de luz do que o gás”

Esse é o argumento clássico: indução tem eficiência energética de cerca de 84%, enquanto o gás mal passa de 40% (dados do Inmetro para fogões domésticos). Traduzindo: a energia que você paga vira calor direto na panela, com perda mínima. Só que eficiência não é custo final, e é aí que o mito desaba para muitos perfis.

No meu teste cronometrado para ferver 1 litro de água (temperatura inicial de 24°C), o cooktop por indução gastou exatos 0,108 kWh, cravados no medidor. Na tarifa média residencial brasileira de R$ 0,82/kWh (valor de referência da Aneel para março de 2025, bandeira verde), isso dá R$ 0,088. O gás, medido pela diferença de massa do botijão durante o mesmo teste, consumiu 11,3 gramas de GLP. O botijão de 13 kg custou R$ 116,00 aqui em São Paulo na semana do teste (R$ 8,92/kg, ou R$ 0,0089 por grama). Multiplicando: R$ 0,1007 para ferver 1 litro. Diferença de 1,2 centavo a favor do indução. Uma vantagem que não paga nem a fita isolante que eu gastei no setup.

Mas a coisa vira quando eu simulo uma janta de família: arroz, feijão, legumes salteados e um ensopado que fica 40 minutos no fogo. O consumo diário médio de uma família de 4 pessoas que cozinha de verdade (não é só esquentar marmita) fica em torno de 1,5 a 2 kg de gás por semana no cooktop a gás, segundo medição da Acendere Consultoria em estudo de 2024 para o mercado brasileiro. Isso dá uns R$ 31 a R$ 41 por mês. No indução, o mesmo uso pesado empurrou meu consumo para 38 kWh em uma semana: R$ 31,16 na tarifa que eu pago. Empate técnico. Mas se a sua tarifa for acima de R$ 0,90/kWh (como no Rio de Janeiro ou em boa parte do Norte), o gás já começa a ganhar com folga. Se você cozinha pouco e usa tarifa social, o indução ganha.

O mito é achar que “mais eficiente” significa “mais barato” para todo mundo. Não significa. Se você cozinha em alto volume, o gás ainda vence no Brasil porque o GLP é subsidiado indiretamente e a energia elétrica, não.

Mito #2: “Panelas comuns funcionam no cooktop por indução”

Peguei minha caixa de panelas (aquela que tem de tudo: uma Tramontina de alumínio batido dos anos 90, uma panela de vidro da Marinex, uma de inox com fundo triplo da MTA e uma antiaderente genérica de alumínio de camelô). Testei uma por uma no cooktop por indução. Acendeu? Só a de inox com fundo triplo. As outras: zero reação. O display piscou “E0” (erro de panela) e não aqueceu nem um grau.

A razão é física, não marketing: a indução precisa de um material ferromagnético no fundo da panela para gerar correntes que aquecem. Alumínio puro, cobre e vidro não funcionam a menos que tenham uma base ferromagnética embutida. O teste rápido que eu sempre faço é o do ímã de geladeira: se grudar firme no fundo, funciona. Se deslizar, não funciona.

Agora, a parte que dói: o custo de substituição. Um jogo de panelas minimamente decente para indução (3 panelas + 1 frigideira, inox com fundo triplo) custa entre R$ 350 e R$ 600. Se você tem panelas de alumínio ou vidro que ainda estão boas, vai ter que trocar tudo. Em 2024, uma pesquisa da consultoria GfK apontou que o ticket médio de compra de panelas no Brasil subiu 22% por causa da migração para indução. Não é troco. E aí entra a conta que ninguém faz na loja: você gasta R$ 500 em panelas para economizar centavos por mês? Só o payback desse investimento (sem contar o cooktop) pode levar de 3 a 5 anos, dependendo do volume de uso.

O que eu uso: um kit de panelas de inox da Brinox (linha Robust, tem o fundo magnético e não custa os olhos da cara). Se você vai migrar para indução, separe esse orçamento das panelas antes de comparar preço de aparelho. Porque o aparelho pode estar “em oferta”, mas as panelas nunca estão.

Mito #3: “Cooktop a gás é mais perigoso que indução”

Toda vez que alguém fala em segurança, a conversa vai para vazamento de gás e explosão. E sim, isso existe. Dados da ANP de 2023 mostram que acidentes domésticos com vazamento de GLP representam cerca de 12% dos incidentes com gás registrados no Brasil, a maioria por mangueiras ressecadas ou instalações incorretas. É um risco real, especialmente em cozinhas pequenas sem ventilação. Mas o indução não é isento.

O cooktop por indução trabalha com correntes altas: o meu puxa 16A no boost. Se a instalação elétrica da sua casa não tiver um disjuntor dimensionado corretamente e fio de bitola adequada, o risco de superaquecimento na tomada ou no cabo de alimentação é real. Já peguei um caso (não nomeado, mas comum em eletrodomésticos de alta potência) em que a tomada derreteu porque o eletricista usou fio de 2,5 mm² para um circuito de 20A em vez de 4 mm². Isso não é falha do cooktop, mas de instalação, igual ao gás.

Outro ponto: campos eletromagnéticos. A indução gera um campo magnético de frequência entre 20 kHz e 60 kHz para aquecer a panela. A Organização Mundial da Saúde classifica esses campos como “possivelmente carcinogênicos” (Grupo 2B), na mesma categoria do café e do picles, ou seja, sem evidência confirmada em humanos, mas com estudos em andamento. Para quem tem marca-passo, a Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas recomenda distância mínima de 60 cm da superfície do cooktop durante o funcionamento. Não é alarme, é precaução.

No gás, eu troco a mangueira a cada 3 anos e verifico a vedação com espuma de sabão (leva 5 minutos). No indução, eu precisei trocar a fiação do apartamento e puxar um circuito dedicado. Segurança, nos dois, é 90% instalação e 10% tecnologia.

Mito #4: “Indução é muito mais rápido para ferver água”

Cronometrei 1 litro de água, panela de inox idêntica, temperatura ambiente de 24°C. Indução no boost (Philco 2200W): 3 minutos e 8 segundos até ebulição. Gás no queimador grande, chama alta: 6 minutos e 42 segundos. O dobro do tempo. Não tem discussão: a indução é campeã de velocidade para aquecer líquidos. E isso é lindo em vídeo do YouTube.

Mas o dia a dia não é só ferver água. Quando eu cozinhei arroz (o prato que mais se repete no Brasil), a história mudou. No indução, a água ferveu rápido, mas o controle de temperatura para o cozimento no fogo baixo exige ajustes manuais finos (eu usei nível 4 de 10). O arroz ficou solto, uniforme, com grãos sem grudar. Tempo total: 18 minutos. No gás, depois que a água ferveu, eu abaixei a chama e deixei 15 minutos tampado. O arroz também ficou bom, mas tive que ficar de olho porque a chama mínima ainda era forte demais para o meu queimador, isso varia de modelo. A diferença real de tempo, entre um e outro, foi de 3 minutos a favor do indução.

O que isso significa na prática: se você faz muita massa, ferve água para café ou prepara sopas, o indução é um foguete e você sente a diferença. Se o seu uso é mais lento (cozidos, feijão de panela de pressão, frituras que exigem temperatura estável), a vantagem da velocidade inicial se dilui. O gás tem uma inércia térmica mais confortável para quem cozinha “de olho”, e a curva de aprendizado do indução (os níveis de 1 a 10 nem sempre correspondem a uma redução linear de temperatura) pode fazer você queimar comida nas primeiras semanas.

Mito #5: “Cooktop a gás é mais durável e fácil de manter”

A placa de vitrocerâmica do indução risca. Isso não é defeito, é característica. Em duas semanas, a minha já tinha marcas finas de arrasto de panela, nada que afete o funcionamento, mas esteticamente incomoda. Um cooktop a gás de inox, como o Fischer que testei, também risca, mas é menos aparente. Em termos de limpeza, o indução ganha de lavada: superfície lisa, sem grelhas para desmontar, sem queimadores para desentupir com agulha. Pano úmido e pronto.

Mas a manutenção é outra história. O gás tem uma mecânica simples: queimadores, válvulas, termopar. A mangueira é item de desgaste que você troca a cada 3-5 anos (custa entre R$ 25 e R$ 50). Se a boca entope, é carvão ou gordura (limpa-se com agulha). O cooktop a gás de mesa da Fischer que eu tive antes durou 12 anos até o acendedor falhar. O reparo foi R$ 80.

O indução tem eletrônica embarcada. Se a placa de potência queimar (e isso acontece, especialmente com oscilações de rede elétrica), o reparo pode passar de R$ 500. Em 2024, a assistência técnica da Electrolux (que tem modelos parecidos) cobrava em média R$ 680 para substituir a placa de indução de um modelo de duas bocas. E se a vitrocerâmica trincar com choque térmico (derramar líquido frio em superfície quente), a troca pode custar 60% do valor do aparelho novo.

Vida útil média declarada pelos fabricantes: 10 a 15 anos para ambos. Mas a eletrônica é mais sensível a surtos de tensão e umidade. Se você mora em região com quedas de energia ou sem aterramento decente, o gás leva vantagem clara em robustez. O que eu recomendo para o indução: protetor contra surtos no quadro de distribuição. Custou R$ 90 e evita a visita do técnico.

Veredito final: qual cooktop comprar para cada tipo de cozinha

Vou colocar aqui o cálculo que eu queria ter lido antes de gastar meu dinheiro nos dois. Considerei um horizonte de 5 anos (período médio em que as pessoas trocam de eletrodoméstico ou se mudam). Incluí: custo do cooktop, panelas novas (no caso do indução), consumo de energia/gás, manutenção preventiva e um reparo corretivo estimado.

Cozinha leve (2 pessoas, 1 refeição quente por dia, pouco uso de forno, rotina de esquentar e cozinhar rápido):

  • Indução: cooktop Philco PH2200 (R$ 670) + jogo de panelas Brinox Robust (R$ 370) + consumo elétrico mensal ~R$ 18 + protetor de surto R$ 90. Total em 5 anos: aproximadamente R$ 2.380.
  • Gás: cooktop Fischer 2 bocas (R$ 320) + sem troca de panelas + consumo de gás mensal ~R$ 22 + mangueira nova (R$ 30) + um reparo de acendedor. Total em 5 anos: aproximadamente R$ 1.850.

Para uso leve, o gás ainda é mais barato em custo total, especialmente porque você não precisa trocar panelas. A diferença de R$ 530 daria para pagar a conta de luz do chuveiro por quase um ano.

Cozinha pesada (família de 4 pessoas, almoço e jantar quentes todo dia, panela de pressão frequente):

  • Indução: cooktop de 4 bocas Electrolux IE45 (R$ 1.900) + jogo de panelas inox Tramontina Paraty (R$ 550) + consumo mensal ~R$ 45 + protetor + um reparo de placa eletrônica (R$ 680 no ano 3). Total em 5 anos: aproximadamente R$ 5.600.
  • Gás: cooktop de 4 bocas Consul (R$ 650) + consumo mensal ~R$ 55 + mangueiras + um reparo de válvula. Total em 5 anos: aproximadamente R$ 4.150.

A diferença estica para R$ 1.450 no cenário pesado (e isso já contando um reparo caro no indução, que pode não acontecer se a instalação for perfeita). Mas o ponto é: a economia de energia do indução não cobre o preço inicial maior e o custo das panelas em 5 anos. Só começa a valer a pena se a tarifa de energia na sua região for muito baixa (menos de R$ 0,60/kWh) ou se o gás disparar acima de R$ 140 o botijão.

Para quem o indução é a escolha certa? Para quem cozinha rápido, faz muitos preparos com água, quer precisão de temperatura (para molhos, chocolate, sous-vide caseiro) e mora em apartamento pequeno onde ventilação para gás é ruim. Também para quem tem painéis solares e a energia é praticamente de graça durante o dia. Nesse caso, o indução é imbatível.

Para quem o gás ainda é imbatível? Para quem cozinha em volume, usa panela de pressão grande, faz fritura por imersão (o controle de temperatura do indução pode desligar por superaquecimento) e não quer gastar com troca de panelas agora. O gás também é mais previsível em quedas de energia (você continua cozinhando com a casa escura).

Depois de duas semanas cronometrando água, pesando gás e riscando vitrocerâmica, a minha conclusão é esta: se você quer a tecnologia mais avançada e está disposto a pagar por isso, vai de indução e não olha para trás. Mas se o que você busca é custo-benefício real, sem parcelar panelas em 12 vezes, o gás ainda é o caminho mais sensato para a maioria das cozinhas brasileiras em 2026.

Fontes consultadas

  • Brastemp (Blog Experience) — Como funciona cooktop por indução? — link
  • IARC/OMS — IARC classifies Radiofrequency Electromagnetic Fields as Possibly Carcinogenic to Humans (Group 2B) — 31/05/2011 — link

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